| A Plataforma dos movimentos sociais pela reforma do sistema político, reúne um conjunto de movimentos/articulações/redes/fóruns e se constitui como um processo de debate e de construção de propostas no sentido da radicalização da democracia. Iniciou em 2004 com o seminário “ Os sentidos da democracia e da participação” , depois em 2005 na formulação de estratégias para 10 anos. A Plataforma promoveu nesse período vários debates sobre o tema em diferentes espaços, congresso nacional, mídia, movimentos, debates nos estados, nos municípios, nos movimentos etc. |
| EDUCAÇÃO POPULAR COMO POLÍTICA PÚBLICA |
|
|
|
| Escrito por Administrator | ||||||||||||||||||||||||||||||
| Qui, 19 de Novembro de 2009 06:39 | ||||||||||||||||||||||||||||||
Este texto foi produzido pela Rede de Educação Cidadã - RECID (www.recid.org.br) e publicamos para incentivar o debate de um tema muito importante.
EDUCAÇÃO POPULAR COMO POLÍTICA PÚBLICA
I – INTRODUÇÃO: Há um
debate que vez por outra aparece no âmbito da Rede de Educação Cidadã (Recid):
o debate sobre “Educação Popular como Política Pública”. Apareceu nos encontros
nacionais e, especificamente, no 7º Encontro Nacional, no contexto de
formulação da proposta de mobilização social para o segundo mandato do Governo
Lula. O debate também veio à tona na elaboração do Projeto Político Pedagógico,
no 8º Encontro Nacional, em 2007. Sobre este tema, no conjunto da Recid, há
mais perguntas e questões que respostas. Como as que seguem: - Quando
falamos de educação popular como política pública qual o sentido e perspectiva?
- Que
limites e oportunidades isso abre? - Qual é a
base teórica? Como garantir os princípios epistemológicos e metodológicos que
garantam os princípios da educação popular? - “Pé na
sociedade e pé no governo”: como essa equação se resolve? - Estamos
falando de educação popular na escola formal? - Seria um
programa, com recursos específicos para processos de educação não formais,
coordenado, com autonomia, pelos movimentos sociais? - Como a
instituição burguesa (Estado) desencadearia uma política educacional que
contrariasse os interesses de sua classe? Não seria uma contradição? - Se é uma
política pública: como garantir os princípios da educação popular crítico
freireana? - A
“educação popular” vem na perspectiva de uma transformação social mais ampla
(soberania, plebiscitos, referenduns...) e a “educação cidadã” está mais ligada
à perspectiva reformista e de inclusão social dentro do contexto capitalista. - Qual a
concepção de política pública? Hoje as pessoas são “objetos” e não “sujeitos”
das políticas. - Como seria
a questão da institucionalidade: como formalizar? Que forma assumiria esta
política pública? Que instrumentos garantiriam a sua efetividade? - Se
democratizássemos as políticas públicas precisaríamos ainda garantir os
princípios da educação popular? - Ao
pautar a educação popular como política pública implica rever o programa de
educação popular da esquerda nos últimos 20 anos. A idéia de “pacto federativo”
versus “democracia direta e participativa”. Entre
ficar com as questões e acumular um debate em torno do tema, a equipe do Talher
Nacional e a Comissão Nacional resolveram ficar com a segunda opção, entendendo
que a Recid ocupa, atualmente, um espaço de síntese (pé no governo e pé na
sociedade civil), a partir do qual pode sistematizar as práticas e acumular
conhecimentos e efetivamente avançar no debate. Neste
sentido, buscamos, coletivamente, aprofundar o que seria a “Educação Popular
como Política Pública” em dois momentos: a) em um estudo, cujo tema foi
“Educação Popular como Política Pública”, conduzido por Pedro Pontual,
presidente do Conselho de Educação de Adultos para a América Latina e
Secretário de Participação Social de Embu das Artes-SP; b) Estudo em reuniões
conjuntas da CN/TN e para a construção de proposta de longo prazo. Este
texto é fruto deste acúmulo e quer suscitar e provocar o debate no conjunto da
Rede, com os(as) educadores(as), homens e mulheres, que constroem esta
experiência de educação popular. Ele pede um processo de reflexão em torno de
nossas práticas, do que construímos nestes quase 8 anos do Governo Lula e o que
sonhamos e projetamos para o futuro. Assumimos esta tarefa como parte de nossa
responsabilidade histórica desde este espaço que ocupamos. II - O QUE ENTENDEMOS POR
EDUCAÇÃO POPULAR: Paulo
Freire dizia que: “a educação não transforma a sociedade. Ela transforma os
indivíduos que são os sujeitos que transformam a sociedade”. Nesta perspectiva,
a educação popular é um dos instrumentos estratégicos na construção de uma
‘revolução moral e intelectual’ para a transformação social. E, assim, ela é
parte integrante e essencial de qualquer projeto de sociedade que caminhe no
sentido da emancipação, que busca agir na mudança de posturas, sentimentos e
valores e estruturas e aponta para novas relações sociais. É
cultura como práxis (ação/reflexão/ação) e enquanto processo de construção de “novos
homens, novas mulheres” e nova sociedade. Nesta perspectiva, o papel da
educação popular na transformação social e na criação de uma nova sociedade,
qualitativamente superior à “civilização do capital”, é a marca de um aspecto
fundamental: sua dimensão ética e cultural. A
educação popular torna-se, deste modo, um dos instrumentos da disputa de
hegemonia[1], através
de experiências portadoras do novo na sociedade civil e no Estado, em processos
de políticas públicas que sinalizem o processo de democratização destas
relações e estruturas em todos os seus níveis, do local ao nacional e também ao
mundial. Todavia,
a educação popular, antes de se tornar lei é uma prática social presente nos
diversos movimentos da sociedade. Antes de se tornar direito adquirido, a
educação popular é uma prática social e cultural. O papel
da educação popular na transformação significa a criação de uma nova ordem,
qualitativamente superior à civilização burguesa. Ela não é, portanto, um
assunto exclusivamente político e econômico. Implica também uma dimensão ética
e cultural. Sintetizando: 1 - A educação popular
tende a colocar a organização popular de base no centro mesmo da construção do
projeto político alternativo; 2 - A
educação popular destaca a importância da democracia na construção do novo
projeto hegemônico; 3 – A
educação popular valoriza a cultura popular como fonte de identidade e força de
um projeto popular nacional; 4 – A
educação popular reconhece a vida cotidiana e a experiência, como espaços de
construção da nova hegemonia; 5 - Como
consequência da valorização da cultura popular e da vida cotidiana do povo, a
educação popular coloca em relevo a importância do papel do indivíduo e da
subjetividade; 6 - A
educação popular assume que o “projeto nacional” é construído a partir das experiências concretas e particulares. Nesta
concepção, nem as transformações econômicas, nem sequer as modificações
sociopolíticas são suficientes para definir o projeto de transformação social
numa linha de emancipação. Para esta ser radical e integral deve questionar,
criticar e transformar o núcleo primário dos valores e significados que habita
no mais profundo dos costumes, dos hábitos e modos de viver e pensar na
sociedade capitalista. As lutas
pela emancipação devem apontar a socialização não apenas do ter e do poder,
mas, igualmente, a socialização do criar, no sentido de criar condições
objetivas que tornem possível a realização integral e múltipla de todas as
potencialidades criadoras do ser humano. Criar a possibilidade de uma vida
feliz que só pode ser alcançada mediante uma liberdade criadora e lúdica, num
reencantamento da vida. III - O QUE NOS ENSINAM AS
EXPERIÊNCIAS QUE NOS ANTECEDERAM: Se
olharmos a história recente do Brasil, o período que vai do final dos anos 50
até 1964, é possível identificar que nesse período há percepção de que foi o
último momento em que a cultura “que fosse boa para burguesia também o era para
todos”. Até então não se tinha manifestado visivelmente fora da burguesia
forças que impusessem ‘culturas’ paralelas. No fim
da década de 50 e começo da de 60 surgiram novos processos. Através de
vanguardas e amplos movimentos sociais de estudantes, populares e intelectuais
começou-se a construção de uma contra-hegemonia. O cinema novo, o teatro
popular, a ação de Paulo Freire e o governo de Miguel Arraes, em Recife-PE, são
expressões destas experiências. No
governo de Arraes em Pernambuco, a educação tornou-se política pública
articulada com movimentos culturais, como o movimento de cultura popular, às
Ligas Camponesas e à pedagogia da alfabetização de Paulo Freire. A partir desta
experiência, Paulo Freire foi chamado pelo presidente João Goulart (Jango), com
seu Projeto Desenvolvimentista e Nacionalista, para ser o ministro da educação
e universalizar a experiência nascida em Pernambuco. No Rio Grande do Norte, a
prefeitura de Natal, dirigida pela esquerda, criou um projeto público de
educação popular, cujo lema foi: “com os pés no chão também se aprende”. O
fenômeno foi tão importante que os poderes competentes tomaram providências
imediatas, resultando na deposição do presidente pelo Golpe Militar. A partir
de 1º de abril de 1964 tais providências foram drásticas em relação a esse
esboço de movimento cultural paralelo e até certo ponto antagônico ao da burguesia.
O Golpe e sua ditadura abortaram todas estas possibilidades de um Projeto
Popular. Sem
dúvidas, este amplo movimento cultural e educativo popular deixou suas raízes.
Nos anos 70, ele foi retomado sob formas novas correspondentes à novas práticas
sociais. No período da resistência à ditadura militar (sobretudo, a partir de
1977), a questão cultural esteve no centro das lutas. Através do teatro, do
cinema, das artes plásticas e da musica; e, no que diz respeito à educação, nos
Centros de Educação Popular, a cultura foi uma das molas mestras na construção
de uma contra-hegemonia, tal qual tinha ocorrido nos anos 60. Não foi,
portanto, por acaso que Antônio Gramsci, intelectual italiano, no campo da
educação, tornou-se uma referência fundamental, como formulador da teoria da
“hegemonia cultural”. No
período de 1978 a 1983, que abre um novo ciclo, os movimentos sociais, as
Comunidades Eclesiais de Base e outros, foram elementos fundamentais da
transição política ocorrida entre 1978 e 1985. Apontaram no sentido de uma
política constituída a partir das questões da vida cotidiana, a partir de uma
nova concepção da política, com a intervenção direta dos interessados.
Colocaram a reivindicação democrática, referida às esferas da vida social, em
que a população trabalhadora está diretamente implicada, nas fábricas, nos
sindicatos, nos serviços públicos e nas administrações dos bairros. Com as
diversas vitórias das esquerdas ganhando a gestão de prefeituras no Brasil,
como a de São Paulo em 1989, onde a educação popular saiu do campo da
resistência para tornar-se política pública, por meio da gestão de Paulo Freire
na prefeitura. Este foi um momento em que o Partido dos Trabalhadores
conquistou um conjunto de governos locais expressivos. O governo de São Paulo,
em 89, tinha o mesmo desafio do Governo Federal em 2003, dado São Paulo ser a
cidade maior do Brasil. Quando Paulo Freire foi convidado para assumir a Secretaria de
Educação houve um grande questionamento porque havia uma visão meio cindida.
“Como a figura mais expressiva da educação popular pode assumir um posto de
Estado?”: Essa era a questão colocada à época. Em resposta, Paulo Freire
afirmou que aceitar essa proposta era, na sua história, uma exigência ética.
Ele aceitou e buscou, no exercício de governo, a partir desse lugar social, sem
nenhuma ingenuidade, construir o referencial da educação popular. Faz parte dos pressupostos da educação popular explicitar
claramente a que veio? Porque veio? E onde quer ir e chegar? Paulo Freire nunca
foi neutro; Ele fez diferenciação entre “autoridade” e “autoritarismo” e foi
contra o autoritarismo. Ao assumir, logo no início, lançou a Plataforma com o nome
“Política Pedagógica: construindo a educação pública popular e democrática”.
Com isso, enunciaram um conjunto de diretrizes, baseados nos princípios
freireanos, que alargaram e tencionaram o Sistema de Ensino Formal, trazendo
para dentro dele a dinâmica da educação popular. Uma delas foi, democratização da própria gestão da política de
educação de jovens e adultos. Para isto, foi necessário fortalecer conselhos
escolares; organizações onde se situavam as escolas; Com isso, quis criar um
movimento envolvendo sociedade e escola que pudesse tencionar a própria
prática. Em sua gestão, criou também o movimento de reorientação
curricular, fundado nos princípios freireanos. O currículo deveria se
estruturar a partir de um conjunto de princípios e precisaria dar conta das
diferentes realidades. Tratava-se de criar um movimento e não um guia, como
acontece hoje. Esta experiência ajudou a perceber algumas coisas: aparece uma
primeira característica das políticas públicas sob o ponto de vista freireano:
afirmação de direitos e a idéia de que os limites e oportunidades não são dados
à priori. Aumenta-se o grau de oportunidades e limites na medida que exerce-se
e ocupa-se espaços. Ao
defender que não seria suficiente apenas a Secretaria de Educação assumir esta
concepção, Freire afirmava que a educação popular pode e deve permear outras
políticas de um governo. Para isso, criaram o Programa Integrado de Educação
Popular (Piep), vinculado diretamente ao gabinete da prefeita, Luiza Erundina.
Havia em cada secretaria uma pessoa como referência. O papel
dos gestores neste novo processo era democratizar, ao máximo, as informações
sobre políticas públicas e do próprio Estado e como funciona a máquina pública.
Para isso, foi criada Escola de Governo e Cidadania. Aprendeu-se,
com isso, que educação popular não pode ser apenas para líderes da sociedade
civil. É necessário também mudar as práticas do setor público e de seus
agentes. Mas isso não acontece por decreto e nem por imposição; é um processo
de longo prazo. Celso
Daniel foi um das grandes formuladores da concepção de gestão pública orientada
por princípios da educação popular. Em seu terceiro mandato a prefeito, para o
qual ganhou com 64% de votos, afirmava que, mesmo ganhando com expressiva
vantagem isso não o eximia da responsabilidade de desenvolver processos de
disputa de hegemonia em torno do projeto que defendia em cada bairro da cidade
de Santo André-SP. Experiência significativa também foi vivida na prefeitura de
Porto Alegre, com a iniciativa do Orçamento Participativo, da gestão
democrática e o controle social. Além do processo constituinte da educação do
governo Olívio Dutra. Essa
esquerda social surge basicamente dos movimentos sociais que proliferam no
período e que refletem complexos e desiguais processos de enfrentamento com o
Estado e o sistema de dominação desde os anos 70. Políticas públicas:
experiências recentes Todo o processo de acúmulo de forças dos movimentos sociais e
das experiências em governos em nível local e estadual teve um certo percentual
na vitória de Lula presidente, em 2002. Deste modo, muitos ministérios
começaram a desenvolver políticas públicas e, com o tempo, a ensaiarem
políticas intersetoriais, buscando construir ações de sustentabilidade e
estruturantes, muitas delas baseadas nos princípios da educação popular:
diálogo, democratização, etc. A própria Rede de Educação Cidadã, surgida da
mobilização social da Presidência, é uma experiência deste contexto. Há,
contudo, muitas práticas conservadoras coordenadas pelo governo. Em 2003,
no Governo Lula, houve algumas alternativas para emplacar a idéia de educação
popular como política pública: - Via
Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) e outros
movimentos sociais que propuseram o Programa Integrado de Formação para a
Cidadania Ativa, proposta que não passou. A Abong e um conjunto de entidades
afirmava, à época, que o que estavam propondo - partir da realidade,
participação e democratização dos espaços públicos - para o programa de governo
já fora testado nas experiências do próprio PT; - Via
mobilização social ligada ao Programa Fome Zero que mais tarde resultou na
articulação da Rede de Educação Cidadã e seu projeto político pedagógico. - Via
múltiplos canais de interlocução que seriam criados a partir do Governo Lula
(conferências e outros), com o objetivo de qualificar a participação dos
cidadãos e politizar o social. Os novos
movimentos sociais (mulheres, negros, homossexuais, indígenas, pessoas com
deficiência, ecológicos, etc) correspondem à (re)descoberta e/ou
(re)valorização de temas ausentes ou minimizados pelo pensamento das esquerdas
tradicionais nas últimas décadas. Estes colocam na pauta uma nova reflexão
substantiva sobre a democracia, entendida como espaço de criação de novos
direitos. Para
Gramsci, a formação de uma hegemonia é um processo de longa duração e a
transformação da estrutura social é precedida de uma revolução cultural. Com
estes horizontes, a formação significa um grande trabalho de educação política
e cultural, tanto em seus conteúdos, sua metodologia e em seus objetivos e
intencionalidade política. Tudo isso aponta para longo prazo na construção de
uma hegemonia popular, o que chamamos em nosso PPP de “poder popular”. Trata-se
de uma “revolução cultural do cotidiano”, de gerar uma cultura democrática. O
que está em jogo é uma nova maneira de viver, com novas relações sociais,
econômicas, ambientais e novas formas de trabalhar, pensar, sentir e significar
o mundo. IV - EDUCAÇÃO POPULAR COMO POLÍTICA PÚBLICA:
PROCESSO EM CONSTRUÇÂO
Para
Pedro Pontual, do ponto de vista histórico, a educação popular como política
pública é um processo muito recente. No plano nacional, disse, é mais recente
ainda e corresponde aos seis anos do Governo Lula. Contudo, disse, há algumas
referências de governos locais, como as descritas acima. Ele vê que o Talher
Nacional tem um papel importante neste debate, uma vez que, junto com a
Comissão Nacional e com educadores populares articulados em todo país,
coordenam a experiência da Rede de Educação Cidadã. É preciso perceber que a realidade é muito mais rica e
complexa do que a reflexão sobre ela. Assim foi também com o exercício de
administrações locais pelo Partido dos Trabalhadores, conforme visto acima. A
realidade e as próprias experiências colocam uma série de questões para as
quais a reflexão acumulada não ajudava a dar respostas à época. Um exemplo, a discussão
sobre criação dos “conselhos populares” e “conselhos de participação” colocados
por ocasião das candidaturas Plínio de Arruda e Luiza Erundina em São Paulo. O
exercício do governo local ajudou a perceber que a sociedade e o Estado são
mais complexos. Neste processo, o Conselho de Educação de Adultos para a
América Latina (Ceaal) também tem uma série de referências construídas. O
Ceaal, organização que Pedro Pontual preside e da qual fazem parte cerca de 200
entidades e organizações das regiões do México, Centro América, Caribe, Andina,
Brasil e Cone Sul, teve Paulo Freire seu fundador e primeiro presidente.. Paulo Freire desenvolveu sua teoria a partir da vivência no
âmbito da sociedade civil. Como viver a educação popular num contexto de ditadura?
Esse era um desafio muito forte. E naqueles tempos houve um movimento de
solidariedade latinoamericana muito forte, com muitas experiências de educação
popular, que resultaram na criação de uma rede e do Ceaal, em 1982. A experiência da Revolução Sandinista, na Nicarágua, também
traz importantes acúmulos neste processo. Na Nicarágua, em 1979, as esquerdas
não colocaram a pergunta de como tornar a educação popular como política
pública. A educação popular não estava pautada. Nem mesmo em Cuba. Este país só
se conectou com o referencial freireano na década de 80, a partir da relação
com o Frei Betto. Dez anos depois, quando os Sandinistas perderam o governo,
aconteceu um encontro em São Paulo-SP, onde Fernando Cardenal fez um balanço do
período colocando a educação popular como motor de um programa
revolucionário. À época Fernando disse:
“uma das razões da perda do Sandinismo foi desenvolver uma gestão centralizada,
sem levar em conta a diversidade nos planos locais”. Esta experiência nos ensina que um processo de educação
popular requer um movimento bastante descentralizado e próximo à vida das
pessoas; Um projeto de Educação Popular como política pública não pode ser
centralizado; precisa estar em profundo diálogo com a diversidade da sociedade
civil. V - ESTADO E SOCIEDADE CIVIL
De
concepção freireana decorre outro aprendizado. Ela nunca estabeleceu dicotomia
entre os espaços “Estado” e “Sociedade civil”. Paulo Freire afirmava não ser
possível, na sua ótica, conceber o Estado e a sociedade civil como polaridades
absolutas. Para ele são entes diferentes, com naturezas autônomas, mas podem e
devem se interpenetrar. Paulo
Freire foi partidário da visão grasmciana de Estado, para a qual é inconcebível
não entender o Estado burguês e suas políticas como um espaço sociocultural
contestado, portanto em constante disputa entre sujeitos e classes que defendem
interesses individualistas e privatizados e outros que buscam concebê-lo como
espaço público em formação, capaz de promover a justiça social e econômica. Segundo
Antônio Fernando Gouvêa da Silva (cf. Vamos Lá Fazer o que Será, pg. 177) tais
disputas não se dão apenas no campo explícito das propostas e práticas
políticas, mas também no plano da cultura, ou seja, na construção e no
confronto entre significados que dão sentido ao papel social do Estado,
buscando legitimar as políticas institucionais desenvolvidas. A idéia
de Estado (educador/educando) é importante. Essa idéia não nega o papel da
sociedade, mas assume que há tarefas de educação que são próprias do Estado.
Desde o Estado e pensando um processo de transformação do próprio Estado. VI - EDUCAÇÃO POPULAR E EDUCAÇÃO CIDADÃ
Nas
experiências relatadas acima também houve a discussão de se à priori a educação
popular e a educação cidadã são transformadoras e/ou reformistas. Segundo Pedro
Pontual, ambas podem ser transformadoras ou reformistas, dependendo das
práticas. Nas
experiências de gestão que Pedro Pontual acompanha, optou-se por educação
cidadã na perspectiva da construção do espaço/esfera pública, sem abrir mão dos
princípios da participação da educação popular. Isso
também porque, segundo ele, o universo da sociedade civil é bem mais complexo.
É preciso atrair outros setores se a gente quiser construir políticas públicas
mais universais. Ainda nos setores populares, a realidade é mais complexa do
que a que estamos acostumados. Educação Cidadã é um convite mais universal a
todos cidadãos para ocupar o espaço público e ao mesmo tempo não abre mão da
educação popular. Outro
aprendizado foi o de que, não é apenas no poder local que se desenvolver
práticas inovadoras. Por outro lado, é preciso também não acreditar que do
ponto de vista centralizado (Governo Federal) vai se implementar a educação
popular. É necessário batalhar por um grau de institucionalidade possível
profundamente descentralizado e conectado com as experiências locais. Nesta
construção é preciso evitar duas perspectivas: a) Ufanismo em relação aos
espaços/canais; b) Deixar de reconhecer que eles foram conquistas históricas. VII - O QUE CARACTERIZA UMA
POLÍTICA PÚBLICA: - Diversidade
e universalidade (dar conta da diversidade territorial, gênero, raça e etnia,
geração); - Democratização
de seu processo. Não só da sua construção, mas da implementação, sistematização
e avaliação; - Capacidade
redistributiva e eqüidade. É
necessário não perder de vista a nossa concepção de política pública.
Entendemos as políticas públicas, no contexto dos direitos humanos, como
direitos adquiridos e que devem ser assegurados plenamente na linha de dar
condições para que as pessoas, em todas as fases da sua vida, possam estar
resguardas e desenvolver as suas potencialidades humanas e sociais. Isso rompe
com a idéia que ainda vigora em muitas políticas públicas, tidas como favor,
aplicadas de forma paternalista, autoritária, como moeda de troca, etc. As
pessoas, no processo de construção de toda a política pública, gestores e
destinatários, precisam ser sujeitos deste processo de construção, avaliando,
tendo acesso às informações e podendo interferir na sua concepção,
implementação, avaliação e controle. VIII - EDUCAÇÃO POPULAR COMO POLÍTICA PÚBLICA
À luz
deste acúmulo, dos erros e acertos das experiências descritas acima, é possível
entender que Educação Popular pode ser referencial teórico/metodológico para
construção de Políticas Públicas na linha de aprofundamento das práticas,
apontando suas contradições e democratizando-as. Que é
possível que a educação popular como política pública possa se dar, num campo
de síntese, de iniciativas da sociedade civil e do próprio Estado, sendo
necessário, para isto, um certo grau de institucionalização, dependendo do que
se conseguiu ao longo dos 8 anos do governo Lula, sem engessar as experiências.
Precisa e é necessário haver uma perspectiva intersetorial. Nisto, há uma noção
em Paulo Freire que é a de “problematização” da realidade e a de “complexidade”
de Edgar Morin. É
necessária uma explicitação conceitual do que se entende pelos temas (político,
pedagógico, epistemológico) e também garantir e assegurar um olhar territorial
para as práticas e a diversidade. Seria muito pouco ou insuficiente criar
agências e recurso público para apenas financiar programas da sociedade civil.
Transformar a educação popular como política pública é mais amplo e requer o
papel do governo com mediações e passos necessários, identificando as
oportunidades e limites a partir dos lugares que se ocupa. O que entendemos: Entendendo
o “Estado” como espaço de disputa sociocultural e econômica, entendemos a
educação popular como política permanente, processual e intersetorial de
formação política para cidadania da sociedade e de agentes públicos cujo
objetivo e intencionalidade é construir o protagonismo popular e social para
forjar as mudanças das práticas e espaços (sociedade e estado) a partir da sua
democratização, humanização e diálogo tendo em vista a transformação da
realidade, a partir de mudanças de valores. Isso exige: - A
construção dialética e descentralizada (sociedade/estado) na formulação,
execução e avaliação da política; - Pessoas
como sujeitos e não como objetos dos processos; - Ruptura
com todas as práticas autoritárias (sociedade/estado); - Disputa
hegemônica política e cultural na sociedade/estado para efetivação da proposta. Rede de Educação Cidadã Equipe Talher Nacional/2009. Endereço:SIG Qd 06 Lote
800, sala 164 –Brasília-DF CEP:70610-460 Contato:(61)3411-3890/94 E-mail:
Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.
SITIO:www.recid.org [1] Conceito formulado pelo deputado e secretário-geral do Partido Comunista
Italiano, Antônio Gramsci (1891-1937). Os conceitos de hegemonia e
contra-hegemonia aparecem em Gramsci sempre referenciados à relação entre
sociedade civil e sociedade política. A luta pela hegemonia acontece no
interior de cada Estado-Nação e também entre os Estados-Nações. No interior de
cada Estado, ela se dá entre diversas partes e, sobretudo, entre as classes
subalternas que devem construir o consenso intelectual prático e moral de uma
nova ordem.
Powered by !JoomlaComment 3.20
3.20 Copyright (C) 2007 Alain Georgette / Copyright (C) 2006 Frantisek Hliva. All rights reserved." |
||||||||||||||||||||||||||||||