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Os mais vulneráveis pagam a conta da austeridade


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Rodrigo Martins

Há três anos, quando a economia dava os primeiros sinais de estagnação, o Brasil apostou todas as fichas na austeridade fiscal. Ainda na gestão petista, o então ministro da Fazenda Joaquim Levy não hesitou em operar a navalha nas despesas públicas, nem assim evitou a recessão que fez o PIB encolher 7,2% em 2015 e 2016.

Após a destituição de Dilma Rousseff, as peças na equipe econômica mudaram, mas o diagnóstico jamais foi revisto. Ao contrário, Henrique Meirelles, colaborador do governo ilegítimo, optou por uma superdosagem do “amargo remédio”. Por meio de uma emenda à Constituição, aprovada pelo Congresso, congelou os gastos da União por duas décadas.

O sacrifício, costumava repetir, seria recompensado pela retomada dos investimentos privados, o impulso que faltava para o País decolar. Ao cabo, teve de disfarçar o sorriso amarelo ao celebrar o pífio crescimento de 1% verificado no ano passado.

Para 2018, não há o mais pálido sinal da arrancada econômica propalada no fim do ano passado, após a aprovação da reforma trabalhista, que alterou mais de cem artigos da Consolidação das Leis do Trabalho. Dia após dia, a realidade impõe-se à propaganda.

Na segunda-feira 16, foi a vez de o Fundo Monetário Internacional revisar para baixo, de 2,3% para 1,8%, a sua previsão de crescimento do PIB brasileiro. No mesmo dia, os analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Banco Central também reduziram as suas projeções. Segundo o último boletim Focus, agora eles esperam uma alta de 1,5%, praticamente a metade do que anteviam em janeiro.

O sacrifício não é, porém, generalizado. Enquanto o Congresso e o governo garantem benesses para o alto funcionalismo e as empresas, a maioria da população, em especial as crianças, que não contam com lobistas poderosos em Brasília, paga a conta do ajuste.

Os indicadores apontam para um quadro de profunda regressão social. Na Saúde, as vítimas da austeridade se avolumam. Pela primeira em 26 anos houve um aumento da taxa de mortalidade infantil. Em 2016, foram 14 óbitos a cada 100 mil nascimentos, alta de 5% em relação ao ano anterior. Até então, o País apresentava redução anual média de 4,9% desde o início dos anos 1990.

Por desleixo no programa de imunização, ressurgem doenças há tempo consideradas extintas. Até a quarta-feira 18, eram 677 casos confirmados de sarampo em seis estados, além de outros 2.724 sob investigação.

Em 312 municípios, nem a metade das crianças com menos de 1 ano de idade foi vacinada contra a poliomielite. Erradicado desde 1989, o poliovírus, responsável pela moléstia que leva à paralisia, só precisa de uma brecha para voltar a se instalar em solo pátrio.