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NO BOLSONARISMO, TODA A DEFESA DA DEMOCRACIA É ENCARADA COMO PROTEÇÃO DOS CORRUPTOS

João Filho

O brasileiro está ficando de saco cheio do governo Bolsonaro. Em pouco mais de 3 meses, dobrou o número de pessoas insatisfeitas com o presidente, revelou a última pesquisa Ibope. A aprovação do modo de Bolsonaro governar caiu 16 pontos percentuais e chegou a 51%. A confiança no presidente caiu 11 pontos, enquanto a desconfiança subiu 15. É o mais mal avaliado início de governo entre todos os presidentes eleitos após a redemocratização.

A crescente insatisfação popular não parece abalar o governo. O presidente governa exclusivamente para a sua base mais fiel, os chamados bolsominions, e não há indícios de que isso vai mudar.

Essa fanática base de apoio continuará sendo alimentada pelas pautas moralistas, pelo embate permanente contra a imprensa e contra o espantalho comunista. Praticamente todas as ações do governo buscam fidelizar essa parcela da população que, apesar de pequena, segue coesa, barulhenta e mobilizada. O resto da população que se dane.

O desprezo pelas instituições não incomoda os bolsominions, muito pelo contrário. Os arroubos antidemocráticos são encarados como necessários para a destruição da chamada velha política que, na prática, é a destruição da democracia como a conhecemos. Toda defesa da ordem constitucional, portanto, será encarada como a defesa dos privilégios, da corrupção, do establishment. É a mesma lógica estúpida que se consolidou no debate público pós-Lava Jato: se você critica a operação, logo está ao lado dos corruptos.

Essa é a principal estratégia do manual de Steve Bannon, o guru ideológico do xucrismo internacional, que ensina a governar ignorando as mediações democráticas e dialogando apenas com sua base de apoio pela internet.

Steve Bannon (de fone de ouvido) reunido com comitiva presidencial brasileira em jantar oferecido para Bolsonaro na embaixada em Washington (EUA). Foto: Alan Santos/PR

Enquanto o noticiário vai sendo tomado pelo aumento do desemprego e da inflação, o governo pisa fundo no acelerador da agenda moralista. Nessa semana, o presidente, homofóbico confesso, disse que “o Brasil não pode ser o país do turismo gay” porque “temos famílias”, ignorando que Israel, nação que tem como referência moral, é um país aberto ao turismo gay. Tel Aviv foi eleita em 2011 a “melhor cidade para gays” do mundo.

O bedel geral da nação também ligou para o presidente do Banco Brasil exigindo a demissão do diretor de marketing da estatal. É que Bolsonaro não gostou de uma propaganda que exibia excesso de “diversidade”. Não há absolutamente nada na peça que possa incomodar os bons costumes da tradicional família brasileira, a não ser que mulheres e negros felizes afetem a moral do presidente por algum motivo.

Além das pautas moralistas, Bolsonaro também se dedica às irrelevâncias enquanto o país derrete em todos os setores importantes. As lombadas eletrônicas, o fim do horário de verão, as bananas do Equador, a revogação do Acordo Ortográfico e a higiene sexual masculina são algumas das pautas caras ao presidente da República. É como se ele fosse um apresentador do Balanço Geral querendo agradar e entreter sua audiência fiel. Treze milhões de desempregados, e o cara preocupado com miudezas. Nos faz lembrar do ex-presidente Jânio Quadros, que também governou em cima de pautas moralistas e abusou em patrocinar irrelevâncias incompatíveis com a grandeza do cargo. Proibiu o uso de biquínis nas praias e na TV, vetou as corridas de cavalo durante a semana e transformou o combate à rinha de galos em uma prioridade do governo.

Até a reforma da previdência — pedra fundamental que garantiu e ainda garante o apoio das elites  — não parece ser uma prioridade de Bolsonaro, apesar do discurso oficial. Basta ver o desdém com que ele já tratou o presidente da Câmara, os parlamentares e a articulação política para a aprovação da reforma. No pronunciamento que fez nessa semana, Bolsonaro agradeceu os parlamentares pela aprovação da constitucionalidade da reforma na CCJ, mas o que ficou claro nas entrelinhas é que a aprovação da reforma é uma tarefa exclusiva do Legislativo:

“Agradeço o empenho da maioria dos parlamentares da comissão e o comprometimento do presidente Rodrigo Maia (…) O governo continua a contar com o espírito patriótico dos parlamentares para a aprovação da Nova Previdência. (…) Sem essas mudanças, o governo não terá condições de investir nas áreas mais importantes como saúde, educação e segurança”.

Traduzindo: essa bucha é do parlamento. Se não resolverem, a culpa pelo fracasso do governo será das forças da velha política que não quiseram acabar com os privilégios.

Essa tem sido e continuará sendo a justificativa para todos os fracassos de bolsonarismo. E vai continuar funcionando entre os bolsominions, que o veem como um messias lutando contra as raposas da velha política.

A comparação com Jânio Quadros cabe aqui novamente. O ex-presidente se deu mal ao se colocar como vítima das “forças ocultas” e apostar que sua base de apoio o sustentaria incondicionalmente. Caiu após sete meses de governo e ninguém saiu às ruas para defendê-lo. Se Bolsonaro terá o mesmo destino de Jânio é difícil prever.

Já o vice-presidente tem cumprido a sua função institucional, o que parece ser um crime hediondo para os bolsonaristas. Mourão se reúne com sindicalistas e políticos da oposição, mantém postura diplomática com todos os países do mundo, busca o bom relacionamento com a imprensa e recusa o papel de marionete intelectual de Steve Bannon ou do tiozão caçador de urso da Virgínia. É por isso que o vice-presidente incomoda tanto. Além de se oferecer como uma opção palatável para as elites, Mourão virou um problema para a macro-estratégia bolsonarista. Bannon já disse que “Mourão se tornou uma voz dissonante e isso é perigoso”, enquanto Olavo o considera um “estúpido” com “mentalidade golpista”. Não foi à toa que o presidente colocou seu filhote pitbull para morder o vice nas redes e instigar suas milícias digitais a iniciarem uma campanha contra ele.

Em resumo, o que temos é um governo democrático de fachada. Há um projeto de degradação da democracia, capitaneado por uma extrema-direita que fideliza o apoio de uma parcela da população com sua cruzada moralista, ignorando o resto dos brasileiros e atropelando quem for preciso para conquistar seus objetivos. É o totalitarismo na sua mais pura essência.